O Conforto da Soberania de Deus

O Conforto da Soberania de Deus

O homem como ser paradoxal que é, tende a nutrir posições diferentes sobre o mesmo assunto, dependendo das circunstâncias que, amiúde, são de caráter passional. Posso, por exemplo, defender a supremacia da lei, até que eu mesmo a tenha quebrado. Do mesmo modo, posso sustentar determinados princípios liberais ou conservadores, desde que a minha família não esteja em jogo, ou que outros interesses políticos não sejam afetados. Ou seja: tendemos a ser mais subjetivos do que imaginamos ou estaríamos dispostos a admitir. Lamentavelmente temos de admitir que somos mais dados a interesses do que a princípios. E o pior: o princípio é o meu interesse. Daí, o meu interesse ser o meu princípio de pensamento e ação.

Uma doutrina que facilmente é objeto de posicionamentos contraditórios é a soberania de Deus. Gostamos de alardear a nossa liberdade, a nossa capacidade de escolha e persuasão. Quando assim fazemos, falar em soberania de Deus parece diminuir um pouco nossa autoconfiança e suposta autonomia; deste modo, consideramos ser melhor deixá-la guardada em alguma gaveta para onde empurramos os papeis que não estão sendo utilizados e não sabemos bem o que fazer com eles. No entanto, quando percebemos que estamos sem recursos, sem perspectivas favoráveis, sem saber o que fazer, podemos, sem talvez nos dar conta, nos contentar com uma fé singela no cuidado de Deus e, podemos então dizer para nós mesmos: “Deus é soberano, Ele sabe o que faz”; “nada acontece por acaso…”. A bem da verdade, nós mesmos, crentes em Cristo, com certa frequência tendemos a adotar atitude semelhante. Calvino (1509-1564) capta bem isso ao dizer: “Mesmo os santos precisam sentir-se ameaçados por um total colapso das forças humanas, a fim de aprenderem, de suas próprias fraquezas, a depender inteira e unicamente de Deus”.

Mas, afinal, Deus é ou não soberano? Parece que esta é uma das doutrinas mais repudiadas pelo homem natural e, ao mesmo tempo, é a doutrina mais consoladora para todos nós que cremos em Cristo Jesus, especialmente nos momentos de aflição.

Uma das grandes dificuldades dos homens em todos os tempos é deixar Deus ser Deus; recebê-lo tal qual Ele Se revela, não cedendo à tentação de construí-lo dentro de nossos pressupostos culturais ou mesmo do nosso gosto pessoal. Estamos dispostos a fabricar nossos deuses para que estes possam cobrir, preencher as brechas de nossa pretensa compreensão em busca de uma arrogante autonomia. Deste modo, quando consigo dominar a realidade, já não preciso de Deus; quando não, invoco este meu deus para justificar as minhas crenças, expectativas e, ao mesmo tempo, a minha falta de fé. Dentro desta perspectiva, onde há ciência não precisamos de Deus; onde reina a ignorância há um espaço para um ser transcendente, destituído de sua glória, é verdade, mas, assim mesmo um “ser superior”. Aqui há o esquecimento proposital, de que o ateísmo é também uma questão de fé. Posso crer que Deus existe, como também, crer que Ele não existe. Em ambos os casos, a fé é essencial.

No Antigo Testamento os judeus insensíveis aos seus próprios pecados, tomaram o aparente silêncio de Deus como uma aprovação tácita de seus erros, projetando em Deus o seu comportamento. Considerando que eles mesmos procediam deste modo, pensavam que Deus fosse igual a eles. No entanto, Deus, no momento próprio, exporia diante deles os seus delitos: “Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista” (Sl 50.21). Calvino diz que o homem pretende usurpar o lugar de Deus: “Cada um faz de si mesmo um deus e virtualmente se adora, quando atribui a seu próprio poder o que Deus declara pertencer-lhe exclusivamente”.

De fato, os homens estão dispostos a reconhecer espontaneamente diversas virtudes em Deus: o seu amor, sua graça, bondade, perdão, tolerância, provisão, etc. Agora, a sua soberania, jamais. A rejeição ao Evangelho é, na realidade, uma rebeldia contra o domínio soberano de Deus. E, a negação da soberania de Deus é uma atitude que pode pavimentar o caminho para o ateísmo. Pink (1886-1952) entende que “negar a soberania de Deus é entrar em um caminho que, seguindo até à sua conclusão lógica, leva a manifesto ateísmo”. A nossa dificuldade está em reconhecer a Deus como o Senhor que reina. A Palavra, por sua vez, nos desafia a aprender com Ela a respeito de Deus e de Seu Reino. O nosso Deus, entre tantas perfeições, é o Deus soberano; sem este atributo, Deus não seria Deus: “Verdadeiramente reconhecer a soberania de Deus é, portanto, contemplar o próprio Deus soberano”. No entanto, Jó demonstra a dificuldade de nossa compreensão, ao indagar: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14). Mas, o fato que faz parte amplamente da experiência cristã, é que somente aquele que confia intensamente na soberania de Deus poderá encontrar a paz em meio às vicissitudes da vida.

Como mais um ingrediente de cautela, devemos entender que o nosso conhecimento a respeito de Deus é um “conhecimento-de-servo” delimitado pelo próprio Senhor, considerando, inclusive, o pecado humano. Em outras palavras: “É um conhecimento acerca de Deus como Senhor, e um conhecimento que está sujeito a Deus como Senhor”. O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa. “Visto que somos seres finitos e não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez, nossa perspectiva da realidade é necessariamente limitada por nossa finitude”.

Poder conhecer a Deus é sempre uma iniciativa de graça divina. O nosso conhecimento é um ato de fé; e esta é procedente da graça. Mais: nunca somos ou seremos o padrão de verdade, antes, precisamos sempre validar o nosso pensamento na Palavra, que é a verdade (Jo 17.17). Só pensamos verdadeiramente quando pensamos à luz da Palavra. Por isso, é que conhecer a Deus é algo singular, porque somente Deus é soberano e, somente a partir Dele podemos conhecê-lo. E tudo isso, por meio de Jesus Cristo, o Deus encarnado. Conhecer a Deus em Sua soberania, portanto, é um dom da graça do soberano Deus. Este conhecimento, por sua vez, nos liberta para que possamos conhecer a nós mesmos e as demais coisas da realidade.

O nosso assunto é a soberania de Deus e a sua relação com a liberdade humana. Creio que todos nós acreditamos nesta verdade bíblica, mas o quanto experimentamos isso em nossa vida? Vamos ao estudo.

De fato, os homens estão dispostos a reconhecer espontaneamente diversas virtudes em Deus: o seu amor, sua graça, bondade, perdão, tolerância, provisão, etc. Agora, a sua soberania, jamais. Pink (1886-1952) entende que “negar a soberania de Deus é entrar em um caminho que, seguindo até à sua conclusão lógica, leva a manifesto ateísmo”. A nossa dificuldade está em reconhecer a Deus como o Senhor que reina. A Palavra, por sua vez, nos desafia a aprender com Ela a respeito de Deus. O nosso Deus, entre tantas perfeições, é o Deus soberano; sem este atributo, Deus não seria Deus: “Verdadeiramente reconhecer a soberania de Deus é, portanto, contemplar o próprio Deus soberano” (Pink). No entanto, Jó demonstra a dificuldade de nossa compreensão, ao indagar: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14). Mas, o fato que faz parte amplamente da experiência cristã, é que somente aquele que confia intensamente na soberania de Deus poderá encontrar a paz em meio as vicissitudes da vida.

Deixemos Deus ser Deus conforme a Sua revelação e descansemos nos Seus cuidados provenientes de Suas promessas. Amém.

Maringá, 18 de janeiro de 2016.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa.
Integra a Equipe de pastores da Primeira Igreja Presbiteriana em São Bernardo do Campo, SP e é Pastor-efetivo da Igreja Presbiteriana do Jardim Marilene, Diadema, SP. É membro do Conselho Editorial e um dos principais escritores da Editora Cruz.

O Conforto da Soberania de Deus

CITAÇÕES:
1- João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 1.8), p. 22.
2- João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 100.1-3), p. 549. Veja-se também: João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Caps. 1-3, p. 11-14.
3- A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: Editora Fiel, 1977, p. 21. Em outro lugar: “Os idólatras do lado de fora da cristandade fazem ‘deuses’ de madeira e de pedra, enquanto que os milhões de idólatras que existem dentro da cristandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possível senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus” (A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 28). “Defender a crença num ‘poder do alto’ nebuloso é balançar entre o ateísmo e um cristianismo total com suas exigências pessoais” (R.C. Sproul, Razão para Crer, São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 48).
4- A.W. Pink, Deus é Soberano, p. 138.
5- John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 56.
6- Norman Geisler; Peter Bocchino, Fundamentos Inabaláveis: resposta aos maiores questionamentos contemporâneos sobre a fé cristã, São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 50.

Compartilhar

Comment (1)

  • Reginaldo Cruz Ferreira Responder

    A Soberania de Deus é um tema tão intrigante quanto confortador. Intrigante, pois desafia nossas capacidades cognitivas. Confortador, devido sabermos que Deus é o nosso provedor, sustentador e protetor.

    21 de julho de 2016 at 17:16

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *