FORMAÇÃO BÍBLICO-TEOLÓGICA PARA PROFESSORES DE ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL – REGINALDO CRUZ FERREIRA

FORMAÇÃO BÍBLICO-TEOLÓGICA PARA PROFESSORES DE ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL – REGINALDO CRUZ FERREIRA

Na  história bíblica, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, tanto na história da Igreja Cristã ou na contemporaneidade, percebe-se que os grandes avivamentos, conversões e transformações autênticas na vida do povo de Deus começaram pela Palavra de Deus. Dessa forma, é necessário que no âmbito da Escola Bíblica Dominical (EBD) construamos e formemos uma base genuinamente teológica que seja permeada e fundamentada nas Escrituras. Isso só será possível através da qualificação bíblica e teológica de seus professores. Para isso, desenvolve-se neste texto uma narrativa bíblico-histórica para servir como paradigma para a EBD.

 

Qualificação bíblica e teológica como aspectos de transformação no Antigo Testamento

 

No Antigo Testamento a construção de uma base genuinamente escriturística e teologicamente eficaz era transmitida pela informalidade da educação (Dt 6.1-10; Pv 4; Ec 8.1). Essa educação tinha o conteúdo do ensino informal e era bastante diversificada além de compreender os seguintes aspectos: a) o culto a Javé (2 Rs 17.27); b) a arte da guerra (Jz 3.2); c) os cânticos (Dt 31.19) e a formação sacerdotal (2 Cr 17.7-9).

 

Além dessa educação informal, podia-se encontrar na perspectiva vetero-testamentária um tipo de educação que envolvia o mentor (educador) e o mentoreado (educando). Essa educação era desenvolvida e transmitida nas casas (escolas) de profetas. Seu objetivo era a formação de líderes em sistema de internato (2 Rs 4.38). Os principais exemplos dessa modalidade de educação, encontra-se em Elias como mentor, em Eliseu como mentoreado (1 Rs 19.19) e em Samuel e Eli na missão sacerdotal (1 Sm 1.19-28). Pode-se acrescentar ainda a relação pedagógica entre Moisés e Elias.

 

Qualificação bíblica e teológica como aspectos de transformação no Novo Testamento

 

 

No contexto do Novo Testamento o próprio Jesus fundamentou uma escola para formação de seus discípulos. Nos Evangelhos temos os relatos que dão veracidade a práxis pedagógica de Cristo afim de promover qualificação aos seus discípulos (alunos). Ele mesmo exerceu o papel de educador e mestre dos doze alunos (discípulos) conforme Mateus 11.28-30. Com o Mestre Jesus eles aprenderam a desenvolver uma espiritualidade Cristocêntrica e solidária. Elaboraram uma teologia prática voltada para o contexto em que viviam, tendo como fundamento a palavra de Jesus e desenvolveram um ministério sob o poder e a capacitação do Espírito Santo (Lc 4.16-21).

 

Semelhantemente, o apóstolo Paulo, depois de sua conversão percebendo a necessidade de preparar-se para os grandes desafios ministeriais que teria pela frente, dirigiu-se para o deserto da Arábia (Gl 1.17,10). Alguns estudiosos do Novo Testamento afirmam que, durante esse período, Paulo ficou (estagiou) no deserto da Arábia. Ele estava sistematizando o evangelho que recebeu por Revelação do próprio Jesus, revendo e organizando sua tradição e formação em perspectiva judaica. Paulo, depois de constituído e reconhecido como apóstolo, fixou residência na cidade de Éfeso, onde criou um centro de treinamento de pastores e missionários (At 19. 9,10).

 

Qualificação bíblica e teológica como aspectos de transformação na História da Igreja

 

Nesse tópico procurei apresentar apenas alguns exemplos de momentos históricos que se tornaram conhecidos pela qualificação bíblico-teológica:

O primeiro aconteceu na cidade de Alexandria, no Egito, desenvolveram um grande centro de cultura e de saber em diferentes áreas. Ali foi organizada uma das maiores bibliotecas daquele período.

O segundo ocorreu na época da Igreja Primitiva onde foi criada uma escola de teologia em Antioquia da Síria dentre os alunos ilustres que essa escola treinou. Destaca-se Jerônimo, que foi o tradutor da Vulgata.

O terceiro ocorre no século IV no qual Agostinho (354-430) utiliza-se da filosofia da Platão para sistematizar a teologia tornando-se um dos maiores intérpretes da Bíblia de todos os tempos.

O quarto momento histórico é o mais relevante, pois se desenvolveu na época da Reforma Protestante do século XVI. Nele, Martinho Lutero contribuiu para uma transformação soteriológica e educacional. Sua contribuição soteriológica se deu porque ele mesmo foi o responsável pela escrita e elaboração teológica das 95 teses – que representaram uma transformação espiritual e hermenêutica. Soma-se também, sua vasta produção teológica e a composição de sua hinologia cristã. A contribuição educacional de Lutero perpassa pela criação do conceito de educação útil (ensino fundamental e médio) e pela capacidade pedagógica do reformador em formular as bases pedagógicas para a pedagogia moderna. Isso inclui a criação de currículo, matriz curricular e qualificação de corpo docente. Com isso, Lutero é historicamente um agente de contribuição para a transformação social.

 

O quinto, se deu na cidade de Genebra na Suíça. Foi nessa época que João Calvino criou a Academia, que teve a nobre função de bem preparar a todos os que manifestavam interesse e chamado para o trabalho teológico e que se sentissem chamados para o trabalho pastoral ou missionário. Dessa escola de formação teológica-pastoral, saíram alunos para atuarem em prol do reino de Deus em toda a Europa, principalmente na França.

 

O último momento de referência histórica que destaco, é recente, pois foi no século XX que o mundo conheceu uma das mentes mais brilhantes que surgiu no espaço e na perspectiva teológica cristã. Refiro-me a Karl Barth, teólogo protestante suíço (1886-1968), um dos mais respeitados estudiosos das verdades bíblicas de nosso tempo. Para ele, ser cristão é enraizar-se no presente e no futuro deste mundo em transformação. Barth declarou que a igreja de Cristo somente será fiel à sua missão (educação e proclamação) quando renunciar a todo desejo de poder e engajar-se na sua missão histórica.

 

Sobre a transformação social que acontece por meio da educação, deve-se lembrar da perspectiva da aprendizagem na visão revolucionária do educador Paulo Freire. Os princípios pedagógicos propostos por Freire são uma tarefa desafiadora para todos quantos se debruçam sobre seus textos e sua prática de ensino. Para ele, toda atividade educacional deve ser baseada na reflexão crítica sobre o homem e na análise de suas condições culturais. Freire compreendia que o homem é um sujeito no processo de educação e não objeto do processo educacional. É necessário observar que neste ponto há identificação entre a pedagogia de Freire e o processo de aprendizagem cristã para o qual o aluno deve ser o sujeito da educação cristã (Ex 18.20; Lv 10.11; 2Cr 17.9; Ne 8.7; At 15.35; 18.25; Cl 1.28; 1Tm 3.2; 4.13; 5.17).

 

O levantamento bíblico-histórico proposto nesse artigo é essencial para pensarmos uma proposta de educação e transformação no espaço da EBD. Evidentemente, isto acontecerá através de um sólido programa de investimento e qualificação de professores e professoras de todas as faixas etárias. Também ressalto a importância de que hajam investimentos em equipamentos, estrutura física e amplo investimento em tecnologia e multimeios. Contudo, a temática desse texto versa sobre a formação em teologia, desse modo, observa-se o grande déficit no número de mestres na Palavra. A base genuinamente teológica e eficaz na EBD não será formada e também não se sustentará sem mestres altamente qualificados, pois no magistério da EBD nunca se deve admitir neófitos no ensino, muito menos obreiros desqualificados. Esse espaço de ensino-aprendizagem chamado Escola Bíblica Dominical, é somente para aqueles que se dedicam ao ensino (Rm 12.7).

 

Hoje, vivemos um momento em que as igrejas locais precisam priorizar o investimento na formação bíblica e teológica da sua liderança. A Bíblia, palavra de Deus foi o fator preponderante para transformação de indivíduos em todas as épocas. Desde o Antigo e o Novo Testamento chegando até aos dias atuais, a palavra de Deus tem sido historicamente o único meio eficaz de mudança de paradigmas e comportamento. Desse modo toda transformação começa pela Palavra.

 

Referências

 

BART, Karl. Church Dogmatics, 1956 (vol. IV, p. 3, 184, 419, 744).

 

FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979 (p. 27-2 e 41).

 

_________. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997 (p. 58 – 60).

 

BARRO, Jorge Henrique. (ONG) Uma igreja sem propósito. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.

 

 

*Reginaldo Cruz Ferreira é graduado em Teologia pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e pela Faculdade de Teologia de Boa Vista (FATEBOV). Licenciado em História (ISEED). Pós-graduado em Ensino Religioso/Formação de Bíblia pela Universidade Católica de Goiás (UCG); Teologia Sistemática (FAIFA) e Mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás). Membro do Conselho de Educação e Cultura da CONAMAD-GO, professor da EBD e pastor auxiliar na AD ministério Vila Nova. Casado com Lívia Cruz e pai de Nicole e Matheus. Feliz avô do lindinho Miguel Ben Hur.

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