EDUCAÇÃO LIBERTADORA OU CRISTIANISMO ALIENADOR?

EDUCAÇÃO LIBERTADORA OU CRISTIANISMO ALIENADOR?

EDUCAÇÃO LIBERTADORA OU CRISTIANISMO ALIENADOR? 

Fernando Maia

1. EDUCAÇÃO E LIDERANÇA
Confessamos que às vezes temos nos empenhado em conseguir o crescimento numérico da igreja em detrimento do espiritual, divorciando a evangelização da edificação dos crentes.
Também reconhecemos que algumas de nossas missões têm sido muito remissas em treinar e incentivar líderes nacionais a assumirem suas justas responsabilidades. Contudo, apoiamos integralmente os princípios que regem a formação de uma igreja de fato nacional, e ardentemente desejamos que toda a igreja tenha líderes nacionais que manifestem um estilo cristão de liderança não em termos de domínio, mas de serviço.
Reconhecemos que há uma grande necessidade de desenvolver a educação teológica, especialmente para líderes eclesiásticos. Em toda nação e em toda cultura deve haver um eficiente programa de treinamento para pastores e leigos em doutrina, em discipulado, em evangelização, em edificação e em serviço. Este treinamento não deve depender de uma metodologia estereotipada, mas deve se desenvolver a partir de iniciativas locais criativas, de acordo com os padrões bíblicos.
A reflexão proposta neste trabalho é desenvolvida a partir do décimo primeiro parágrafo do Pacto de Lausanne. Esta conferência realizada em Lausanne, Suíça, faz neste ano de 2015, 40 anos de esforços reflexivos em direção a uma teologia mais bíblica e prática, do que propriamente teórica.
A problemática levantada no décimo primeiro parágrafo de Lausanne se desenvolve a partir da constatação das polaridades desenvolvidas pela cristandade até então. Estas dicotomias são percebidas na relação “Crescimento numérico versus Espiritualidade”, como também, “Evangelização versus Edificação”.
Outros problemas são também evidenciados; para o autor do texto, uma consequência desta segregação é a carência de fundamentos teológicos na liderança, e consequentemente, o insuficiente esforço no treinamento de pastores e líderes. Em busca da edificação da igreja, são enfatizadas necessidades como, ensino doutrinário, acompanhamento pelo discipulado e a evangelização bíblica, isto é, um chamado ao arrependimento e não, meramente um chamado à resolução de problemas pessoais. Assim, esta edificação gera serviço, e em contra partida, o serviço gera edificação.
Os esforços em direção a uma mudança de paradigma devem dispor de alguns cuidados. Considera-se que frequentemente há tendências ideológicas e estereotipadas na metodologia escolhida em busca do sanar estas carências. Evidencia-se também, uma escolha por modelos já testados em outros lugares e não se valoriza a cultura local margeada pelos padrões bíblicos, de maneira que a cultura seja percebida e enriquecida dentro destes princípios.
Que ações poderiam sanar as discrepâncias desta dicotomia que priva os novos irmãos de um crescimento maduro pela Palavra de Deus e os coloca automaticamente em uma “linha de produção” de liderança na igreja local? Em relação ao preparo do pastorado das comunidades locais, como resolver a tendência de vários grupos cristãos, em sua grande maioria com propensões neopentecostais, de consagrar uma liderança não preparada teologicamente? Com referência ao primeiro questionamento, seria possível modificar este paradigma da liderança industrializada, por meio de reflexões profundas e arraigada aos modelos descritos pelos escritores neotestamentários? Seria possível, no tocante ao segundo questionamento, desmascarar os estigmas que a teologia sofre, sobre sua aplicabilidade e legitimidade na igreja local?
Em busca de respostas, a igreja contemporânea se posicionou de diversas formas. As comunidades que se aproximaram do neo-pentecostalismo tenderam a priorizar a busca das experiências espirituais, o que implicou também em um distanciamento dos fundamentos apostólicos. Os pentecostais se movimentaram em direção ao equilíbrio “experiência/fundamento bíblico” priorizando o estudo das Escrituras para assim, tentar limitar os excessos das chamadas “experiências espirituais”, mesmo conscientes de que alguns grupos migraram para o neopentecostalismo por não concordarem com esta limitação do “mover do espírito”. As comunidades tradicionais permaneceram em sua concepção e posicionamento absorvidos e herdados de grupos pré e pós-reformadores, no entanto, não se aculturaram, e assim, não desenvolveram respostas satisfatórias para as comunidades seculares em seu entorno; isto implicou em um retrocesso numérico, uma atrofia que ainda limita sua percepção de meio vivencial e das necessidades de uma sociedade fragmentada.
Tendo estas considerações em mente, a proposta desta reflexão é desenvolver possíveis caminhos em busca de um saudável equilíbrio entre os fundamentos teológicos, tão necessários para a cristandade “em todos os tempos”, como também, das experiências individuais que são tão marcantes, visto que, claramente a percepção da Revelação Especial de Deus parte de um pressuposto subjetivo, que foi tão bem expresso por Anselmo: “Creio para vir a compreender”.
Esta reflexão justifica-se claramente diante do panorama religioso brasileiro, que tem sido bombardeado por um evangelho midiático que, propagado conscientemente por indivíduos sem nenhum tipo de formação teológica sólida, invade as casas de nossa sociedade, escandalizando alguns e iludindo tantos outros por meio de propostas alheias à verdade bíblica.
Os diálogos desta reflexão partem do pressuposto metodológico bibliográfico, onde se considera a possibilidade de abocamento e tenta-se convergir os resultados dialogais em direcionamentos práticos para a vida da igreja em pleno século XXI. Vale-se assim, de conceitos e ações já materializados em outros espaços/tempos, produzidos pela experiência de quem verificou a validade de tais esforços.
2.EDUCAÇÃO LIBERTADORA
Falar em educação é primariamente perceber que há possibilidades de ir além de nossa atual posição. Educar é direcionar, guiar e sem dúvida alguma, educar-se. Não poucos pensadores perceberam a educação nestes termos. Em vários momentos de nossa história, como povo brasileiro, vários esforços foram desenvolvidos para que em um porvir, as discrepâncias fossem de alguma maneira, despojadas de seus fomentadores.
Para RIBEIRO (1986, p.15), há uma clara incapacidade de educar o povo brasileiro. Esta inabilidade alcança não somente a educação, mas infere na capacidade de alimentar o povo. Segundo o autor, a desigualdade que abraça o povo brasileiro é resultado direto do posicionamento das classes dominantes, sejam elas antigas ou modernas, pois para os dominadores, “o povo é apenas o que há de mais reles”.
Não somente RIBEIRO (1986) conseguiu ler o mundo ao seu redor através das dificuldades de se educar um povo; percebem-se também nas reflexões de FREIRE (2012), os mesmos questionamentos e temores diante de tão cruel realidade. Para FREIRE (2012, p. 12), educar é “aprender a escrever a sua vida como autor e testemunha de sua história”, sendo assim, se o povo é privado de tamanha beleza, isto é, “ser senhor” de sua história, escrevendo-a e reescrevendo-a quando necessário, aliena-se toda uma nação, pois se não há educação, não pode existir conscientização, e onde não há consciência, reina a alienação.
Talvez o leitor tenha percebido que houve um deslocamento do conceito de educação cristã para a concepção da realidade da educação no Brasil. Isto foi proposital. O motivo é que, se como brasileiros, temos profundas dificuldades na educação formal, não devemos ser inocentes ao ponto de pensar que estas mesmas dificuldades não nos alcançará quando considerarmos desenvolver uma educação que seja cristã no âmbito de nossas comunidades eclesiásticas.
Segundo MACHADO (2011), a educação em sua mais profunda concepção carrega consigo a “falsa polaridade” de conservar e transformar a realidade. Estes elementos são expressos em duas dimensões principais – o ducere e o educere – o conduzir e o eduzir. Pode-se perceber que o “conduzir” se encarrega de receber quem se aproxima para ser educado, mas sua resposta após esta ação de direcionar quem chega, fica evidente pela “edução”, isto é, pela extração do conhecimento gerado pelo encontro, pela relação.
Conforme o autor, deve-se perceber que a educação é construída efetivamente sobre estes dois fundamentos: conservação e transformação. É preciso, no entanto, ter o cuidado de não se estigmatizar os conceitos por um senso comum que não participa da responsabilidade de conservar o que precisa ser preservado, tampouco, transformar a realidade de quem precisa experienciar mudanças.
Após considerar estas primeiras percepções, são constatadas que os esforços em direção a uma educação cristã que seja relevante à sociedade não nasce propriamente dentro da igreja, tampouco seu meio vivencial permanece no interior das comunidades eclesiásticas, pois a sociedade que se encontra com o Cristo é uma sociedade que já se encontrou com algum tipo de educação, e esta educação deve ser agora, criteriosamente, moldada pela “educere” de Cristo, e esta educação transformada pelo Cristo deve agora multiplicar o modelo divino na sociedade onde o próprio Deus a colocou. Talvez um dos principais problemas enfrentados pelos cristãos nos dias atuais seja esta falsa percepção de que seu “cristianismo” encontre sentido apenas dentro das paredes de sua comunidade. Stott, em seu comentário sobre o Pacto de Lausanne, expõe a clara relação entre o chamado de Cristo e o chamado da Igreja em João 21.22; o modelo que a igreja possui é o modelo de Cristo – Assim como o Pai me enviou, eu envio a vós outros – o que para o autor, fica evidenciado que “a missão é feita do modo de Jesus”.
Educação que liberta é gerada por um povo que percebeu sua responsabilidade diante da sociedade. Uma comunidade de cristãos que entende que é preciso educar a humanidade nos moldes de Cristo é uma igreja com possibilidades de transformar o mundo. Evidentemente, transformação que revela vida eterna com Cristo não atua apenas no âmbito educacional, ela vai além do que se pode visualizar, por isso a ação cristã no mundo é uma ação pelo Espírito de Deus, pois se o “educere” conduz para fora, o chamado de Deus para a humanidade é um chamado para ser novo homem; foi exatamente isto que Jesus deixou claro para Nicodemos quando lhe afirmou que era necessário nascer novamente, uma transformação realizada pelo próprio Espírito de Deus. (João 3).
3.CRISTIANISMO ALIENADOR
Como descrito anteriormente, a alienação encontra lugar na mente de uma humanidade que não desenvolve critérios para suas ações. Talvez este seja um dos principais problemas enfrentados pela igreja contemporânea: a alienação. Possivelmente, este fato se deve ao modo com o qual as comunidades Eclesiais se relacionam com a educação. Como exposto, não há valorização na construção de uma educação que transforme pessoas comuns em “pequenos cristos” na terra.
A liderança que representa a igreja na atualidade é, segundo STOTT (2003), fomentadora do divórcio entre evangelização e edificação dos crentes. O que resulta deste posicionamento é uma clara superficialidade em escala mundial, evidenciado pela “eterna” infantilidade cristã, privando assim, a comunidade de um desenvolvimento maduro em Cristo, de uma educação que transforme.
Conforme o autor existe dois princípios essenciais para uma liderança cristã bíblica. Para ele é preciso apoiar todos os necessários esforços para que as comunidades sejam autônomas e nacionais, isto é, independente da origem dos esforços missionários, as características culturais, que se alinhem com os padrões bíblicos, devem ser fomentadas em direção à uma genuína expressão da Glória de Deus através daquele povo.
Outro ponto abordado pelo autor é que se deve considerar a situação da humanidade como “humanidade caída”; sendo assim, obriga-se considerar que os líderes nacionais não devem derivar seu estilo de liderança de padrões seculares que são evidenciados pelas formas de domínio. A alienação é expressa exatamente neste formato, onde líderes reclamam uma autoridade que não pode ser questionada por outros homens, pois segundo eles, somente Deus pode requerer deles justificativas de seus posicionamentos. Este formato de liderança não condiz com os ensinamentos bíblicos. O modelo exposto pelas Escrituras é um padrão fundamentado no serviço e na auto-abnegação. (Mc 1.42-45 / 2Co 4.5 / 1Pe 5.3).
Este tipo de posicionamento dominador é evidenciado pelo afastamento dos modelos bíblicos, pois, se há um enquadramento aos moldes das Escrituras, todo e qualquer tipo de relacionamento entre os homens resgatados por Cristo, terá como base o serviço. É este modelo de união que é fomentado por uma educação teológica e bíblica. A boa teologia sempre revelará mais Cristo, suas ações e palavras, do que propriamente os desejos e sonhos de um líder que se diz representante de Jesus. Quem representa Cristo deve sem dúvida alguma, andar como ele andou. (1Jo 2.6)

A alienação desenvolvida pelo afastamento das Escrituras e a falha revelada por uma educação que não visa o amadurecimento da cristandade, está diretamente ligada à necessidade de se desenvolver educação teológica, pois para Stott:

“Os problemas que a igreja enfrenta são sempre basicamente problemas teológicos. Neste sentido a igreja precisa de líderes que tenham aprendido a pensar teologicamente, de modo que possa aplicar princípios cristãos em toda situação”

Se isto é verdade em relação à liderança, continua Stott, quanto mais em relação aos pastores/mestres; pois não precisam apenas ser “mestres aptos” (1Tm 3.2), mas também “apegados à palavra fiel que é segundo a doutrina de modo que tenha poder, assim para exortar, pelo reto ensino, como para convencer os que contradizem” (Tt. 1.9).
4.CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que foi ponderado como principal objetivo dos esforços reflexivos e missionários em Lausanne, teve início na percepção da urgência em desenvolver no âmbito do terceiro mundo, ambientes de preparo teológicos através de seminários, cursos de extensão, grupos de pesquisas, como também a formação de comunidades teológicas, fossem nacionais ou regionais.
Este preparo teológico não se limita apenas à esfera representada pela liderança tradicional representada pelos pastores e presbíteros, mas se estende ao que é chamado de liderança leiga; uma liderança que nos últimos anos tem se multiplicado pelas diversas representações e modelos eclesiásticos, como por exemplo, a visão dos 12, G12, visão celular, e tantos outros modelos.
Buscando responder os questionamentos levantados na introdução deste texto, é preciso primeiramente perceber que o cristão, e/ou seus líderes, não devem de forma alguma, apressar seu desenvolvimento espiritual em busca de um lugar dentro da liderança de sua comunidade. Muitos líderes desenvolvem modelos de preparo rápido, visando uma expansão que necessariamente pode não ser sadia. A tendência em se consagrar pastores e líderes sem preparo teológico, tem se revelado um verdadeiro problema em pleno século XXI, e a resolução destas complicações encontrará caminho pelo desenvolvimento de um modelo de ensino que celebre a necessidade de profundo preparo teológico para aqueles que se sentem chamados a guiar o povo de Deus.
Esta expansão cristã representada pelos diversos tipos de liderança, sejam leigos ou clérigos, evidencia ainda mais a necessidade de promover, impulsionar e favorecer ambientes necessários de formação teológica. Para Stott, um programa de treinamento eficaz deve considerar pelo menos dois pontos principais: 1- Este treinamento deve ser completo, abrangendo doutrina bíblica, discipulado, evangelização que seja bíblica, edificação dos novos convertidos e serviço; 2- As comunidades devem ser incentivadas a treinar sua própria liderança aos moldes dos padrões bíblicos.
Estas reflexões não findam por meio deste trabalho. O que fica evidenciado que é todos os que desejam servir fielmente a Cristo, devem também desenvolver este tipo de abordagem educacional em suas comunidades cristãs, para assim, como igreja no mundo, ser relevante e eficientemente fomentadora de transformações, ser sal e ser luz.

F.Maia

REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
http://ultimato.com.br/sites/lausanne/2014/07/22/movimento-lausanne-quatro-decadas-em-missao/ acesso em: 25/07/2015.
http://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/pacto-de-lausanne-pt-br/pacto-de-lausanne acesso em: 25/07/2015.
http://www.ultimato.com.br/conteudo/o-movimento-lausanne-e-a-missao-integral#pacto+de+lausanne acesso em: 25/07/2015.
MACHADO, N. J. Tópicos de Epistemologia e Didática. Curso de Pós-Graduação – ANO 2011 – Faculdade de Educação – USP. Disponível em: http://www.veduca.com.br/play/5575 Acesso em: 15/07/2015.
RIBEIRO, Darcy. O livro dos CIEP’S. Rio de Janeiro: Block, 1986.
STOTT, John. Pacto de Lausanne comentado. São Paulo: ABU, 2003.

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