A SUFICIÊNCIA E EFETIVIDADE DA PALAVRA DO SENHOR

A SUFICIÊNCIA E EFETIVIDADE DA PALAVRA DO SENHOR

A SUFICIÊNCIA E EFETIVIDADE DA PALAVRA DO SENHOR

“Este é o sentido da parábola: a semente é a palavra de Deus (lo,goj tou/ qeou/) – Lc 8.11.

“Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus (lo,goj tou/ qeou/)– Ap 19.13.

Lucas relata que após Paulo e seus companheiros (At 15.22,30-34) levarem a decisão de Jerusalém para as igrejas, Paulo e Barnabé, juntamente com muitos outros irmãos, permaneceram em Antioquia ensinando (dida/skw) e pregando (eu)aggeli/zomai) com muitos outros, a palavra do Senhor (lo,gon tou/ kuri,ou)(At 15.35). Agora, talvez fosse o momento de esses homens começarem a falar da decisão do Concílio, da fraqueza de alguns judeus, quem sabe até de apóstolos e presbíteros, da pressão de outros ou, enfatizar a sua influência para que o parecer fosse unânime (At 15.22,28), ainda mais considerando que Paulo e Barnabé foram relevantes neste evento, tendo, inclusive, a honra de falar a todo Concílio que os ouviu atentamente (At 15.12). No entanto, o Evangelho não é isso, antes é o ensino e proclamação da Palavra do Senhor. Evangelizar não é mostrar a “superioridade” de nossa cultura, falar de nossa igreja, nossa posição, nossa inteligência ou mesmo humildade, antes anunciar a Palavra do Senhor. Como temos insistido, somente a Palavra de Deus é poderosa para transformar e edificar; “…. a Palavra do Senhor é semente frutífera por sua própria natureza”.[1] Deus Se dignou em consagrar a Si mesmo “as bocas e línguas dos homens, para que neles faça ressoar Sua própria voz”.[2] Portanto, como servos não estamos trabalhando a nosso próprio serviço, mas, de Cristo; não buscamos discípulos para nós mesmos, mas para Jesus Cristo: “A fé não admite glorificação senão exclusivamente em Cristo. Segue-se que aqueles que exaltam excessivamente a homens, os privam de sua genuína grandeza. Pois a coisa mais importante de todas é que eles são ministros da fé, ou seja: conquistam seguidores, sim, mas não para eles mesmos, e, sim, para Cristo”.[3]

Todo o nosso anúncio deve estar fundamentado, cercado e dirigido pela Palavra. O Evangelho é a Palavra do Senhor, não a nossa. Contudo, quanto mais confiamos em nossa capacidade e autorrelevância, mais estaremos dispostos a nos assenhorear da mensagem e, portanto, da proclamação. Assim, gradativamente creremos com bastante veemência em nossa sabedoria e atualidade; afinal, concluímos de forma tão lógica: temos sido tão bem sucedidos neste método que certamente estamos anunciando o Evangelho. Na realidade, talvez sem que o tenhamos percebido, o Evangelho deixou de ser a Palavra do Senhor para ser a minha palavra, a minha compreensão, a minha opinião, a minha experiência, a minha perspectiva, a minha tese, etc. Notaram? A Palavra do Senhor desapareceu desta pregação. Para sermos justos, devemos dizer que a igreja também é responsável pelo surgimento e perpetuação destes personagens doentios com estas mensagens fictícias: temos, muitas vezes, aplaudido tais mensageiros, incentivado o ego de seus proponentes, os enchidos de fama e poder. Ao invés de examinarmos as Escrituras para ver se o que foi dito confere (At 17.11), simplesmente os aplaudimos porque gostamos e, se gostamos, dentro deste critério leviano, é verdade. Olhando pela perspectiva do “pregador”, pergunto: Como perceber o erro quando as coisas parecem estar funcionando? Como entender que me desviei da Palavra do Senhor se os meus ouvintes se ampliam cada vez mais e dizem com um afago no ombro e um sorriso piedoso: “foi uma bênção”? Assim, sou levado a pensar que tenho um novo método de anunciar a Palavra; deste modo, meu próximo passo será escrever um livro ou subscrevê-lo, com o título: A Palavra do Senhor segundo a minha interpretação.

Por outro lado, quanto mais confiarmos no poder de Deus operante por meio da Palavra, menos estaremos dispostos a confiar em nossa suposta capacidade. A nossa oratória pode e certamente não é totalmente adequada; no entanto, a Palavra que pregamos, jamais será ineficaz no seu propósito. Neste sentido, escreveu Chapell: “Quando os pregadores percebem o poder que a Palavra possui, a confiança em seu chamado cresce, da mesma forma que o orgulho em seu desempenho murcha. Não precisamos temer nossa ineficácia quando falamos das verdades que Deus revestiu de poder para a realização dos seus propósitos. Ao mesmo tempo trabalhar como se nossos talentos fossem os responsáveis pela transformação espiritual, torna-nos semelhantes a um mensageiro que reivindicava mérito por ter posto fim à guerra por haver ele entregue a declaração escrita de paz. O mensageiro tem uma nobre tarefa a realizar, mas porá em risco sua missão e depreciará o verdadeiro vitorioso se atribuir a si façanhas pessoais. Mérito, honra e glória com relação aos efeitos da pregação pertencem apenas a Cristo, pois somente a Palavra produz renovação espiritual”.[4]

Pedro e João quando pregaram em Samaria – tendo sido antecedidos pela pregação de Filipe com grande número de conversões (At 8.5-8) –, registra Lucas: “Eles, porém, havendo testificado e falado a palavra do Senhor (lo,gon tou/ kuri,ou), voltaram para Jerusalém e evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos” (At 8.25).

A despeito de toda perseguição contra a igreja, inclusive com o assassinato de Tiago por parte de Herodes (At 12.2), diz a Escritura: “Entretanto, a palavra do Senhor (lo,goj tou/ qeou/)[5] crescia e se multiplicava” (At 12.24).[6] Deus continuava operando poderosamente por intermédio de Sua Palavra. Como sempre, Deus honra e honrará a Sua Palavra, não as nossas opiniões.

Quando Paulo e Barnabé pregam na Sinagoga de Antioquia, os judeus ficam impressionadas com a sua exposição do Antigo Testamento e como este apontava para Jesus Cristo. Convidaram-no para que repetissem a mensagem no sábado seguinte (At 13.42). Certamente alguns creram na mensagem (At 13.43). No outro sábado o auditório tornou-se ainda maior; todos queriam ouvir a palavra de Deus: “No sábado seguinte, afluiu quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus (lo,goj tou/ qeou)(At 13.44). Enfrentando oposição de alguns judeus, Paulo demonstra que a mensagem rejeitada pelos judeus era agora destinada aos gentios. Registra então Lucas: Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor (lo,gon tou/ kuri,ou), e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna. E divulgava-se a palavra do Senhor (lo,goj tou/ kuri,ou) por toda aquela região” (At 13.48-49). Notemos: Os gentios se alegraram com a mensagem e, por isso, glorificavam a palavra do Senhore, na sequência, a palavra do Senhor é que se divulgou em toda região. Deus transforma os corações e faz com que a Sua Palavra, pelo testemunho e pelos efeitos dos que por ela foram alcançados, se expanda. Algo semelhante vemos na igreja de Tessalônica: “Porque de vós repercutiu a palavra do Senhor (lo,goj tou/ kuri,ou) não só na Macedônia e Acaia, mas também por toda parte se divulgou a vossa fé para com Deus, a tal ponto de não termos necessidade de acrescentar coisa alguma; pois eles mesmos, no tocante a nós, proclamam que repercussão teve o nosso ingresso no vosso meio, e como, deixando os ídolos, vos convertestes a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro” (1Ts 1.8-9).

Quando Paulo e Barnabé entenderam que tinham que direcionar o seu ministério para outras cidades, saindo de Antioquia, registra o Livro de Atos: “Alguns dias depois, disse Paulo a Barnabé: Voltemos, agora, para visitar os irmãos por todas as cidades nas quais anunciamos a palavra do Senhor (lo,gon tou/ kuri,ou), para ver como passam” (At 15.36). Destaquemos: a Palavra do Senhor era a sua pregação em todas as cidades; não era uma exceção aqui ou acolá. Mais: a Palavra do Senhor havia operado poderosamente. Tanto é assim que agora eles vão visitar “os irmãos”. Ou seja: Muitos de seus ouvintes haviam criado na Palavra do Senhor e, portanto, se agregado à Igreja. De fato, “…. creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48). A indignação dos judeus não era simplesmente contra Paulo, antes, contra a sua persistente e contínua mensagem: “Mas, logo que os judeus de Tessalônica souberam que a palavra de Deus (lo,goj tou/ qeou/) era anunciada por Paulo também em Beréia, foram lá excitar e perturbar o povo” (At 17.13). Note o “também” do texto. Os judeus o perseguiram em Tessalônica por causa desta mensagem; agora, eles tomam conhecimento de que em Beréia (80 kms de Tessalônica) Paulo persiste; eles não resistem: “foram lá excitar e perturbar o povo”.

A Palavra do Senhor não significa apenas o primeiro anúncio, os primeiros passos do Evangelho, como se dissessem: no primeiro momento anunciamos a Palavra do Senhor; depois “elevamos” o nível, não. Lucas relata que Paulo passou dois anos pregando diariamente na Escola de Tirano em Éfeso. A mensagem era a mesma Palavra do Senhor; não havia o que de fato acrescentar: “Durou isto por espaço de dois anos, dando ensejo a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor (lo,gon tou/ kuri,ou), tanto judeus como gregos” (At 19.10). O resultado desta pregação acompanhada de sinais por meio dos quais Deus operou (At 19.11), foi que “Assim, a palavra do Senhor (lo,goj tou/ kuri,ou) crescia e prevalecia poderosamente” (At 19.20).

Anos mais tarde, Paulo está preso em Roma; já fora julgado e aguardava o veredicto (Fp 2.19,23,24). Analisando os fatos que lhe aconteceram, ele pôde concluir que por meio da sua prisão, englobando todos os elementos decorrentes da sua situação de preso, o Evangelho estava sendo anunciado. Escreve então aos filipenses: “Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as cousas que me aconteceram têm antes contribuído para o progresso do evangelho” (Fp 1.12).

Paulo compartilhava com uma igreja também sofrida (Fp 1.27-30), que a sua prisão, ao invés de fechar as portas para a proclamação do Evangelho, estava abrindo novas, inimagináveis e estimulantes oportunidades para o seu testemunho. Como diz Hendriksen, “quando o Apóstolo foi para Roma como prisioneiro, na verdade foi o evangelho que entrou em Roma”.[7] Ele demonstra a sua tese: “De maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana[8] e de todos os demais” (Fp 1.13). Paulo estava algemado a um soldado; havia um revezamento entre os guardas que ficavam com ele. Eles acompanhavam o testemunho de Paulo em todas as suas amarguras e sofrimentos; viam-no aconselhar, orientar e orar com e por aqueles que o procuravam; ditar as suas epístolas para um secretário (em alguns casos é possível que Paulo traduzisse para o soldado romano o que tinha dito em grego), conversava com eles, etc. Isto por certo contribuiu para que muitos destes homens recebessem a Cristo ou, mesmo que isto não acontecesse, estes soldados falavam a respeito do testemunho e ensinamentos daquele prisioneiro tão diferente dos demais. A sua fama corria. Por isso Paulo acrescenta: e de todos (o(/l%) os demais” (Fp 1.13), isto é: os habitantes de Roma em geral. Sintomaticamente, no final da carta, Paulo escreve: “Todos os santos vos saúdam, especialmente os da casa de César” (Fp 4.22). Certamente referia-se a muitos dos serviçais de César – escravos e ex-escravos, possivelmente, entre eles, alguns da “guarda pretoriana” que teriam se convertido.

Observem: Paulo estava preso, mas a Palavra de Deus não podia ser aprisionada: Mais tarde ele escreveria a Timóteo, dizendo que por Jesus Cristo, “estou sofrendo até algemas, como malfeitor; contudo, a palavra de Deus (logoj tou= qeou=) não está algemada” (2Tm 2.9). Nada nem ninguém podem deter a Palavra de Deus; os homens podem criar armadilhas para impedir a mensagem, contudo, a Palavra de Deus é o poder de Deus!

Maringá, 18 de janeiro de 2016.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa.

Integra a Equipe de pastores da Primeira Igreja Presbiteriana em São Bernardo do Campo, SP e é Pastor-efetivo da Igreja Presbiteriana do Jardim Marilene, Diadema, SP.

[1] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.6), p. 103.

[2] João Calvino, As Institutas, IV.1.5.

[3]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.5), p. 101-102.

[4]Bryan Chapell, Pregação Cristocêntrica, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p. 22.

[5] Literalmente: “Palavra de Deus”.

[6] Lemos também que após a eleição dos primeiros diáconos, “Crescia a palavra de Deus (lo,goj tou/ qeou/), e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé” (At 6.7).

[7]William Hendriksen, Exposição de Filipenses, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, p. 96.

[8]A “guarda pretoriana” (praitw//rion) nos tempos de Paulo, era a guarda de elite, a guarda imperial que tinha a responsabilidade de manter a boa ordem. Os seus membros eram privilegiados, chegando a receber três vezes mais do que os outros soldados regulares; serviam apenas durante 16 anos, tendo uma aposentadoria especial. Esta guarda que fora criada no período anterior a Era Cristã, duraria – com alterações –, até o ano 312 quando Constantino a desativou (Veja-se: Guarda Pretoriana: In: R.N. Champlin; João Marques Bentes, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia, São Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 1991, v. 5, p. 376-377).

Todavia, no texto, ao que parece, a ideia é de que o testemunho de Paulo, aquele misterioso prisioneiro, alcançou todo o “Pretório”; uma espécie de palácio do governador (nas províncias), onde também ficava a sua casa; aqui, usado de forma figurada, referido-se talvez ao palácio do imperador ou à casa das autoridades judiciais. (*Mt 27.27; Mc 15.16; Jo 18.28 (duas vezes); 18.33; 19.9; At 23.35; Fp 1.13). Seja como for, as notícias a respeito de Paulo se espalharam entre as autoridades romanas.

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Comment (1)

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    10 de Março de 2017 at 14:08

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